A Síndrome de Burnout
A Síndrome de Burnout é ainda pouco conhecida pelos profissionais de saúde. Entretanto, isto precisa mudar, tanto pelo caráter epidêmico, com freqüência altíssima, estimada em mais de 50% dos profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), e pelo paradoxo de fazer daqueles que promovem a saúde, seus próprios doentes.
Esta síndrome não acomete apenas médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, mas qualquer profissional que lide diretamente com pessoas, e com uma rotina intensa e desgastante, como advogados, professores, policiais, bombeiros, agentes carcerários, operadores de callcenters, entre outros. A definição moderna seria “Síndrome caracterizada pelo esgotamento físico, psíquico e emocional, em decorrência de trabalho estressante e excessivo. É um quadro clínico resultante da má adaptação do homem ao seu trabalho.” (Hudson Hübner França, 1987). Cabe aqui salientar que Síndrome de Burnout não é sinônimo de estresse genérico, mas um tipo específico de estresse que tem origem no trabalho.
Para aqueles profissionais que se enquadram no grupo de risco, vai um alerta das graves conseqüências finais desta síndrome: elevados índices de suicídios, abuso de drogas e bebidas alcoólicas, incapacidade física ou mental definitiva, e morte pelas doenças associadas como infarto do miocárdio, derrame, diabetes, entre outros.
Os sinais e sintomas podem ser classificados em físicos, psicológicos e comportamentais, e estão listados na tabela 1.
Sabemos que o estresse está relacionado com muitas doenças, como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, obesidade, gastrite, alopécia (perda de cabelo), psoríase, alergias, insônia, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (“derrames”), distúrbios sexuais - como impotência sexual e ejaculação precoce no homem e frigidez nas mulheres – e transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade e suicídio.
Peter Nixon conduziu um estudo que explica a tendência ao estresse no estilo de vida moderno. A curva da função humana, como este pesquisador descreve, é um retrato do que acontece com pessoas submetidas a qualquer estímulo estressante. Inicialmente, existe um rápido e progressivo ganho de produtividade e desempenho, ou seja, nesta fase o indivíduo experimenta a fase boa do estresse. Por este motivo, a sociedade e o próprio indivíduo toleram, e até estimulam o estresse, visto que ele é positivo, por provocar uma tensão saudável e produzir aumento de desempenho, e consequentemente maiores ganhos a nível pessoal e institucional. Na segunda fase, existe um declínio do desempenho, pelo aparecimento da fadiga. Ao persistir o estímulo estressor, o indivíduo passa da fadiga para o esgotamento, e ao contrário do senso comum, não tem uma estagnação do seu desempenho ou um declínio lento, mas sim uma queda abrupta para a total inatividade, explicada pela ocorrência das doenças associadas. No gráfico 1 o ponto P representa o ponto limite, que uma vez ultrapassado, é irreversível, e o indivíduo tem que ser definitivamente afastado de suas atividades, e depois de recuperado (se isto ocorrer) deverá considerar seriamente a mudança de profissão.
Existem 2 conhecimentos surpreendentes na questão da Síndrome de Burnout: todos os doentes têm a sua autocrítica distorcida, pois o estresse provoca uma reação global do organismo com alterações físicas, endócrinas e mentais que é descrita como preparo do organismo para reação de luta ou fuga. Um exemplo: existem histórias de soldados que no campo de batalha não percebiam um braço estilhaçado e que continuavam guerreando ou fugindo sem sentir dor, devido a situação de estresse extremo. Assim, é comum que portadores de Burnout sejam os últimos a reconhecerem a gravidade da sua situação. O outro novo conhecimento, é o impacto equivalente que tanto fatores positivos e negativos têm em provocar estresse. Por exemplo, é muito difícil para o senso comum aceitar que o estresse negativo da perda de um filho possa ser tão intenso como o nascimento de um filho, mas está provado que ambos desencadeiam a mesma pontuação na escala do estresse. Todos nós temos a tendência de subestimar os impactos das mudanças, quando elas são consideradas positivas, e isto é muito perigoso.
O tipo de personalidade do indivíduo tem grande importância como fator facilitador à ocorrência de Burnout. O indivíduo com a personalidade classificada pelos psicólogos como tipo A é propenso ao estresse. Ele é descrito como impaciente, ambicioso, competitivo, agressivo e trabalhador; estabelece metas e expectativas muito altas e está particularmente propenso a emoções antecipadas, induzidas pelo estresse, como a ansiedade. Enquanto o tipo B, que é bem-humorado, calmo, relaxado, e não é publicamente ambicioso, corre menos risco de ter estresse e doenças cardíacas.
O ambiente de trabalho também pode ser um outro fator facilitador da Síndrome, como pode ser visto na tabela 2. Estes podem ser classificados em desencadeantes sócio-organizacionais e ambientais.
O primeiro passo para controle de Burnout é o diagnóstico individual ou coletivo daqueles grupos de maior risco, como por exemplo, funcionários de pronto atendimento e UTI do hospital. A abordagem deve incluir medidas de controle dos fatores desencadeantes. Algumas medidas são muito simples e de aplicabilidade imediata: criação de programas de alerta e conscientização de estresse, reestruturação de equipes com objetivo de harmonização, treinamento de funcionários (educação continuada), redução da burocracia, investimento no ambiente de trabalho com aquisição de ar condicionado, móveis ergonômicos, boa iluminação e incentivo a eventos de socialização e confraternização.
O controle do estresse a nível individual é possível através de muitas medidas de curto, médio e longo prazo. Os acometidos devem procurar especialistas que possibilitem o diagnóstico e tratamento precoce de doenças, através de um check-up completo. Se for o caso, a ajuda de psicólogos ou psiquiatras é obrigatória, quando houver tentativas de suicídio ou abuso de drogas ou álcool. A prática de atividade esportiva regular e uma dieta balanceada são importantes para o controle do peso e manutenção da saúde.
O gerenciamento de tempo é fundamental. Pouco adianta usar um bom relógio, pois neste campo, as pessoas têm melhores resultados com uma bússula. Mais importante que controlar o tempo, uma boa gestão do tempo exige prioritariamente, a definição do rumo pretendido na vida e na carreira. Disso depende todo o resto, e assim, haverá menos desperdício de energia e foco nas prioridades, e inclusive serenidade e convívio saudável com a família. O uso de novidades tecnológicas como palmtops, notebooks, e-mail, internet, e celulares, tem um valor controverso, por causa do lado positivo do aumento de produtividade e melhor aproveitamento do tempo, porém existe o risco do rompimento dos limites entre o lazer e o trabalho. Os intervalos de descanso durante o expediente devem ser respeitados, procurando relaxamento e melhora do relacionamento interpessoal. As férias devem ser bem planejadas e efetivamente gozadas a intervalos regulares. O cuidado com a aparência pessoal e a busca de uma comunicação clara e assertiva devem ser constantes. O investimento pessoal em reciclagem, participação de cursos e congressos é muito positiva.
O novo contexto do mundo globalizado, com um ritmo alucinante de mudanças, o excesso de informações e a alta competitividade, tem contribuído com o agravamento do Burnout nas pessoas de risco. Da mesma forma que os profisssionais da saúde são uma das principais vítimas, estes são também os mais aptos para dar a volta por cima, para continuar na nobre missão de socorrer e salvar vidas.
Bibliografia:
Administração do Estresse. 6ª edição. Jerrolds S. Greenberg. – Barueri, SP. Ed. Manole, 2002.
Gerenciamento do estresse: traga calma para sua vida já!. Brian Clegg – Rio de Janeiro, RJ. Ed. Quallitymark, 2002.
Gerenciamento de Tempo: concentre nos objetivos, evite distrações, organize seu espaço, delegue com eficiência: soluções práticas para os desafios do trabalho. Melissa Raffoni – Rio de Janeiro, RJ. Ed. Elsevier, 2006.
O Livro da Sobrevivência ao Estresse: como relaxar e viver positivamente. Alix Kirsta – São Paulo, SP. Ed. Manole, 1999.
O Stress no Brasil: Pesquisas avançadas. Marilda Lipp (org.). – Campinas, SP: Papirus, 2004